Marxismo, Antifascismo e a Esquerda Cor-de-Rosa

 

Estou muito feliz que minha entrevista com o jornal El Confidencial tenha desencadeado um grande debate filosófico-político na Espanha. Devo agradecer, é claro, ao excelente jornalista Esteban Hernández por me dar esta oportunidade.

Por Diego Fusaro

(2019)

Estou muito feliz que minha entrevista com o jornal El Confidencial tenha desencadeado um grande debate filosófico-político na Espanha. Devo agradecer, é claro, ao excelente jornalista Esteban Hernández por me dar esta oportunidade. A entrevista provocou um grande debate. O principal expoente da esquerda espanhola, Alberto Garzón, também interveio com algumas reflexões críticas, e tomou uma posição crítica em relação à minha entrevista. O assunto que tem provocado mais polêmica e reflexões contrárias tem sido o do fascismo e do antifascismo, bem como o problema do soberanismo populista de esquerda. Eu rapidamente começo com o primeiro problema e depois passo para o segundo.

É claro que a questão do antifascismo é absolutamente decisiva. Gostaria de resumir a questão da seguinte forma: na época de Gramsci ou Gobetti, limitando-nos ao contexto italiano, o antifascismo era indispensável e fundamental, e era, pelo menos em Gramsci, de função comunista, patriótica e contrária ao capitalismo. O problema, porém, surge quando o antifascismo continua a se desenvolver na ausência do fascismo ou, mais precisamente, quando o fascismo, se por essa expressão entendemos genericamente o poder, muda sua face.

Então, de Gramsci temos que passar para Pasolini para entender a questão. Pasolini nos anos 70 tinha compreendido perfeitamente que a nova face do poder não era mais a do clérigo-fascista, mas a do permissivo, consumista, hedonista. Pasolini disse que o “antifascismo arqueológico” era um álibi muito conveniente, que permitia, sem muito esforço, lutar contra o poder fascista, que já não existia, e não tomar posição em relação a nova face do poder: o poder consumista e hedonista. Esta era a função estratégica do antifascismo na ausência do fascismo, se quisermos colocar as coisas dessa forma.

Quanto aos grupos de jovens fascistas, Pasolini, nos “Escritos Corsários” afirma que “eles são paleo-fascistas e, portanto, não são fascistas”. Em que sentido? No sentido de que o novo fascismo era o da civilização consumista, um fascismo ainda mais totalitário que o anterior, um fascismo que conquistava almas, enquanto o velho fascismo, ao contrário, criava uma dissociação entre almas e corpos; usava-se o uniforme fascista, mas depois, quando ele era tirado o fascism ainda não havia afetado a alma, as pessoas ainda pensavam livremente, sendo talvez antifascistas na alma. Ao contrário, o novo fascismo do consumo, dizia Pasolini, é um fascismo realmente totalitário porque coloniza as almas e não permite a dissociação entre o uniforme e o coração, se quisermos chamar assim.

Acredito, nos passos de Pasolini, que hoje grande parte da esquerda não é mais vermelha, mas cor de rosa, não mais foice e martelo, mas arco-íris, usam o antifascismo na ausência do fascismo como álibi para não serem anticapitalistas na presença do capitalismo. De fato, grande parte da esquerda, que passou do internacionalismo proletário ao cosmopolitismo liberal, é verdadeira e totalmente capitalista, seu programa é o da “sociedade aberta” capitalista: abertura ilimitada do real e do simbólico, livre circulação de bens e pessoas, modernização avançada e, portanto, luta contra tudo o que se opõe à modernização capitalista, rotulado de “fascista”, “regressivo” e “antimoderno”.

Portanto, a esquerda, que não mais defende as ideias de Gramsci e Marx, mas defende diretamente o capital, pelo menos a maior parte dela, precisa manter vivo o antifascismo para se legitimar, para que a contradição não seja evidente; isto é, o fato de a esquerda ser antifascista, agora que o fascismo já não existe e não ser anticapitalista, agora que o capitalismo está avançando mais do que nunca. Ao contrário, usam o antifascismo como desculpa para aderir completamente ao “fascismo” da civilização consumista, ao trunfo invisível da economia de mercado. Estou pensando no caso francês onde a esquerda forma uma frente unida antifascista contra Le Pen para aceitar plenamente o “fascismo dos mercados” e a elite financeira Rothschild, representada pelo liberal Macron.

Este é o primeiro ponto fundamental. Se o antifascismo era uma questão indispensável na época de Gramsci, hoje torna-se álibi para aceitar o cosmopolitismo liberal, portanto, o verdadeiro antifascismo hoje é o anticapitalismo radical daqueles que ainda não venderam seus corações e mentes ao capitalismo dominante. Sobre o segundo ponto, é claro, em minha opinião, e não sou o único a apoiar esta tese – na Itália estou pensando, por exemplo, em Costanzo Preve ou, mais recentemente, em Carlo Formenti – que a luta de classes hoje envolve necessariamente a recuperação da soberania nacional contra os dispositivos globalistas do mercado, e passa pelo que o próprio Formenti chamou de “momento populista”.

Em suma, o conflito de classes é hoje o conflito entre uma classe cosmopolita líquido-financeira, por um lado, e as massas populares nacionais, por outro, estas últimas sofrendo os efeitos da globalização que defino como a “classe do precariado”, precarizada não só na esfera laboral, através do contrato de trabalho flexível e sem instabilidade, mas também no mundo da vida, do Lebenswelt, diria Husserl, porque de fato os dominados hoje não podem constituir uma família, ter estabilidade existencial ou participar ativamente da política como cidadãos do Estado soberano nacional.

Portanto, o conflito, hoje mais do que nunca, é obviamente uma luta entre uma “classe global” cosmopolita, líquida e financeira, que é de direita – se quisermos usar as antigas categorias – na economia, e de esquerda na cultura, e uma massa nacional popular que sofre com a globalização, constituída pela velha classe média precarizada e a velha classe trabalhadora atomizada reduzida às condições da precariedade. A classe dominante é, portanto, de direita na economia e de esquerda nos costumes e na cultura. De direita na economia porque assumiu o imperativo liberal: privatização, cortes nos gastos públicos, supressão dos direitos sociais do Estado de Bem Estar Social. Tudo isso está acontecendo através da dessoberanização da economia. Diz-se que o objetivo da “cessão de soberania” é evitar conflitos, na realidade é destruir os Estados soberanos nacionais como espaços das democracias de direitos sociais.

Não há na modernidade outra realidade para os direitos sociais e para as democracias fora dos Estados soberanos nacionais. É por isso que a expressão “pátria ou morte” de Che Guevara tem validade própria ainda hoje, porque não só reivindica a identidade contra o anonimato impessoal dos mercados, mas também porque reivindica a ideia de soberania nacional contra os processos de desenraizamento do globalismo capitalista. A classe dominante é de esquerda nos costumes e na cultura porque não fez seu o imperativo da esquerda anticapitalista de Gramsci ou Lênin, que na verdade repudiou, mas adotou o da esquerda cor de rosa de 1968, que identifica o comunismo com a liberalização individualista do consumo e dos costumes; ou seja, com a sociedade self-service dos consumidores individuais que têm toda a liberdade que podem concretamente comprar e se sentem livres como os átomos nietzscheanos, como super-homens com uma vontade de poder ilimitada, ou seja, concebem a liberdade como propriedade do indivíduo desenraizado em comparação com as comunidades liquidadas como autoritárias: a comunidade familiar, a comunidade política, a comunidade religiosa.

Este é o absurdo, a confusão que caracteriza o monstro do pensamento único dominante da elite capitalista, contra o qual, para recuperar um discurso de classe que protege os de baixo contra os do alto, o trabalho contra o capital, é preciso, obviamente, retomar o controle da economia. Este é o tema do belo livro de Fazi e Mitchell ‘Reclaiming the State’ [Retomando o Estado], que saiu em italiano com o título ‘Sovranità o Barbarie’ [Soberania ou Barbárie]. Hoje as classes dominadas não têm outra escolha senão recuperar completamente a soberania nacional, econômica, política e geopolítica e reintroduzir formas de luta de classes nos espaços do Estado soberano nacional, para que o Servo e o Senhor, nas palavras de Hegel, possam mais uma vez olhar no rosto um do outro, e o conflito de classes, impossível de ser realizado nos espaços globalizados, possa ser recuperado. Se quisermos colocar de outra forma, o Estado nacional soberano pode ser democrático e socialista.

A economia sem política e sem Estado nunca será democrática nem socialista, será sempre o húmus ideal para o capital cosmopolita, que é tudo menos socialista e democrático. Daí a importância do que eu chamo de soberanismo internacionalista e populista. Soberanismo porque a soberania nacional é plenamente recuperada como base para os direitos e democracias do socialismo e das conquistas sociais. Internacionalista porque não é o nacionalismo da direita reacionária, xenófoba e autoritária, é uma soberania internacionalista aberta às outras nações socialistas e democráticas, cria o internacionalismo proletário, como um dia foi chamado, que é o oposto tanto do nacionalismo individualista e reacionário quanto do cosmopolitismo liberal ao qual a esquerda cor de rosa vendeu sua cabeça e coração, como eu disse antes.

Por isso me parece importante recuperar o princípio da soberania internacionalista que tem como base o populismo entendido como uma teoria do povo e para o povo, como uma visão que se opõe aos processos de pós-democratização administrados pelas elites liquido-financeiras e reafirma o princípio do nacional-popular entendido à maneira gramsciana. Um populismo concebido não em sentido regressivo, ou seja, Trump para deixar claro, mas de forma emancipatória, como muito bem escreveram Laclau e Mouffe, um populismo de esquerda, se ainda quisermos usar essa categoria, um populismo cuja finalidade é a emancipação objetiva das classes dominadas e que tem como fundamento a democracia socialista. Este é o ponto fundamental que também aparece nas obras de Carlo Formenti. O paradoxo é que esse discurso, que em outros tempos teria sido chamado de leninista, marxista ou gramsciano, hoje a esquerda cor de rosa e arco-íris chama de fascista.

É um paradoxo porque obviamente estou me referindo a Gramsci, à democracia socialista, ao internacionalismo solidário, ao slogan de Che Guevara “Pátria ou Morte”, ao modelo de soberanismo solidário e internacionalista, às experiências bolivarianas na América do Sul: Chávez na Venezuela, Morales na Bolívia e todas as experiências de socialismo patriótico antiamericano e antiglobalista que, sem dúvida, não podem ser chamadas de fascistas. A categoria do fascismo, desse ponto de vista, nos introduz em um paradoxo lógico, hoje o fascismo é usado como uma categoria completamente a-histórica. O fascismo não é mais apenas e essencialmente o de Mussolini, que morreu em 1945. Hoje entendemos por fascismo, dou esta definição, tudo o que não é orgânico do pensamento único politicamente correto e eticamente corrupto, mais precisamente, o fascismo é, do ponto de vista do senhor cosmopolita “no borders” e da esquerda cor de rosa e arco-íris, tudo o que se opõe ao domínio da classe dominante, e lhes dou um exemplo concreto destes dias. Hoje uma das teses dominantes do senhor cosmopolita é a abertura de portos e fronteiras. Por quê? Porque o mundo inteiro deve ser reduzido a um espaço aberto e desregulamentado para a livre circulação dos bens e das pessoas coisificadas.

Por conseguinte, quem se opõe a essa visão, reivindicando a primazia do humano e do político, defendendo a necessidade de regular, pela primazia do político e da democracia, os fluxos, dos capitais, das pessoas, dos desejos de consumo, é automaticamente difamado como fascista pela esquerda cor de rosa, para quem tudo que seja incoerente com o senhor cosmopolita, de quem são os idiotas úteis, é fascista. O paradoxo é este, resumo-o assim, se difama tudo o que se opõe à ordem da classe dominante ‘sem fronteiras’, da classe dos globocratas do capital, que difamam como fascista a ideia de intervenção do Estado na economia, difamam como fascista o despertar das classes dominadas, dos oprimidos que, como disse Fichte, estão acima de qualquer autoridade que pretenda ser superior.

O povo é soberano, a democracia, afinal, é a soberania do povo que, para ser exercida, precisa de um Estado soberano onde o povo seja, por sua vez, soberano; sem soberania do Estado não pode sequer haver soberania no Estado, a soberania popular e, portanto, a democracia. A União Europeia, está fundamentada exatamente nisso, eliminar a soberania dos Estados para aniquilar a soberania popular nos Estados e, portanto, aniquilar as democracias e os direitos sociais relacionados. Daí que o antifascismo está se tornando mais uma vez chave fundamental das classes dominantes e das esquerdas seguidistas, a fim de deslegitimar todas as propostas de renovação e democratização do espaço global.

O paradoxo é que hoje, como Orwell dizia, a relação entre nomes e coisas é subvertida, hoje a violência e perseguição do pensamento livre que caracterizava o fascismo emerge novamente sob o nome de antifascismo, na figura inédita das brigadas cores de rosa do antifascismo arco-íris e dos esquadrões que em nome do antifascismo atacam, muitas vezes não só metaforicamente, todos aqueles que não aderem ao verbo único politicamente correto da classe dominante.

Hoje, portanto, devemos tomar consciência disso e obviamente manter uma distância segura tanto do fascismo histórico, que já não existe, quanto do neoliberalismo cosmopolita falsamente progressista de hoje, ao qual também a esquerda se adaptou com o paradoxo que está diante de nossos olhos. Cada vez que a esquerda ventila o retorno do fascismo, ela cria uma “frente única” que legitima o cosmopolitismo liberal ou, como diria Pasolini, o novo fascismo da civilização glamorosa dos mercados.

Fonte: https://blogs.elconfidencial.com/espana/tribuna/2019-07-07/marxismo-antifascistas-alberto-garzon-el-confidencial_2109887/

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